sábado, 5 de junho de 2010

A Manipulação das Nossas Vidas


Por não ter sido publicado integralmente no Jornal de Notícias de 5 de Junho de 2010, deixo o texto completo:

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A MANIPULAÇÃO DAS NOSSAS VIDAS

Hipocritamente e sem nos darmos conta, vamos sendo enganados, manipulados e apaziguados por um conjunto de regras e leis que prejudicam gravemente a nossa condição de vida e criam uma permanente incerteza para o futuro.
No mundo actual, onde os governantes perderam o respeito pelo cidadão comum e fazem a política do contraditório das promessas eleitorais, a sociedade caracteriza-se por um conjunto de pragmatismos aparentemente inócuos mas com uma finalidade bem conseguida: debilitar a justiça, endeusar os patrões e criar constrangimentos nos trabalhadores.
Nos bastidores dos seus gabinetes, tanto na concepção das leis do trabalho como na gestão da educação e da formação cívica, os governantes preparam o terreno para formarem cidadãos indolentes e dóceis, capazes de aceitar facilmente condições de trabalho e de remuneração abaixo das suas necessidades. Ao facilitarem o trabalho precário, sem regras e sem valorizar o trabalho na sua essência social, deixam nas mãos de patrões sem escrúpulos a vida de famílias inteiras. Este tipo de política, além de fragilizar os trabalhadores e quebrar a sua auto-estima, acarreta encargos dispendiosos para o erário público, porque a instabilidade nos empregos coloca mais gente no desemprego e acarreta mais despesas em subsídios.
As circunstâncias que levam ao mau funcionamento dos tribunais não são, de todo, inocentes. Há um conjunto de leis enviesadas e preparadas para servir o próprio poder político que deixam o cidadão comum à mercê dos arbítrios dos juízes mal formados. Invariavelmente, os enredos em que se movem os agentes da justiça são de tal modo promíscuos que poucos conseguem submergir entre a burocrática rede de interesses obscuros. Neste contexto da justiça, é impensável desejar-se uma “justiça moral” e muito menos acreditar na moralização dos agentes da justiça. Juntando aos vícios que persistem, existem muitos outros vícios nocivos e maus para gerir a justiça para todos.
Num quadro assim, tendencialmente, sentimo-nos revoltados mas incapazes de reagir com violência; estamos como que submissos a uma força estranha, sem pensarmos se o problema nos perturba ou se nos atira para a escravidão. É isso que os governantes querem: uma “paz social” preparada através da manipulação das nossas vidas. Por causa da ideia de que os problemas sectoriais só afectam quem está nesse sector é um erro histórico que o tempo tem desmentido dramaticamente. Veja-se a crise global, que não é só crise económica; é também crise de valores e de ética.
Dizem que a história não se repete mas, quando os oprimidos soltam as amarras, esta paz aparente pode terminar em revoltas trágicas e inadequadas numa sociedade que se quer civilizada.

Joaquim Coelho

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1 comentário:

Liberto disse...

Palavras para quê, um milhão de palmas por este texto há que ter grande coragem para poder dizer as verdades. PARABÉNS