quinta-feira, 7 de maio de 2026

Bloqueios dos Tempos Sombrios

 Razões para o Sentido da Vida

   As coisas que vemos e queremos mudar…

   Francamente, não percebo porque há tanta gente a modificar-se!

   Há dias, falava com um jornalista brasileiro, que fez reportagens comigo nas “revoltas” do Kosovo, e logo me afrontou com as mudanças de atitude dos novos jornalistas na busca da verdade: “lembras-te Coelho, quando pretendíamos falar dos acontecimentos das guerras nos Balcãs, organizamos a viagem e fomos ao meio do turbilhão para noticiar com verdade”?  Ora, vejo cada vez mais pessoas a alterar as suas rotinas e formas de ver para avaliar os desvarios cometidos pelos governantes caseiros, tal como os mandantes do mundo.

   Sempre estive atento, como uma sentinela alerta; sinto desgosto por ver o servilismo estampado nos noticiários que nos enchem as televisões na hora do almoço. Conheço alguns jornalistas com vontade de prestarem melhor informação mas, logo os comentadores “patrocinados” distorcem a realidade dos factos e embrulham as notícias no manto nebuloso das conjecturas e fabulações que nos deixam mais entorpecidos das ideias do que os coitados das vidas sem futuro.

   Assim, neste mundo perturbado pelas inteligências irracionais, fico desapontado com os responsáveis pelo ensino e educação dos jovens, que aceitam passivamente os aberrantes programas formatados pelos serventes ideológicos dos  ministério. Há alguns anos que estamos perante uma avalanche de instrumentos reformativos manipulados por gente sem as necessárias capacidades para enfrentar o futuro que se apresenta complicado. Das escolas saem pessoas irresolutas, com formações inacabadas, sem capacidade para reformularem sonhos de vida para o sucesso. Pois, aqueles que não tiverem astúcia e força para vencer a melancolia, acabarão por ficar perdidos nas valetas.

   Tudo isto me causa tristeza e repulsa; o que mais reforça o meu alento para continuar a ajudar na defesa das causas que contribuam para um mundo mais justo e fraterno.  

Vila Nova de Gaia, 20 de Julho de2024 (faço 85 anos amanhã)

Joaquim Coelho

Porque vem ao encontro das minhas preocupações, seguem os seguintes textos:

ESTUDO…

   Um terço dos alunos das escolas portugueses mostra sinais de sofrimento psicológico e falta de competências emocionais. O problema agrava-se à medida que a escolaridade vai avançando. As raparigas são mais afetadas. As conclusões são de um estudo do Observatório Escolar e foi feito este ano junto de mais de 8 mil crianças e adolescentes, do pré-escolar ao 12º ano. Também metade dos professores inquiridos demonstra fragilidade psicológica, como tristeza, irritação ou dificuldades em conciliar o sono. O estudo “Monitorização e Ação – Saúde Psicológica e Bem-estar” foi encomendado pelo ministério da Educação e tem um universo de quase 1500 professores, mais de 80% são mulheres.

Por Eduarda Maio - Jornalista

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O SENTIDO

    Texto inspirado na leitura do livro “O homem em busca de um sentido” de Viktor Emil Frankl, médico neurologista e psiquiatra, nasceu em 26 de Março de 1905 em Viena.

   Durante a segunda guerra mundial foi deportado para campos de concentração, incluindo Auschwitz. Quando Frankl foi libertado descobriu que toda a sua família mais próxima tinha sido morta, pai, mãe, irmão e esposa grávida.

   O livro baseia-se nos relatos de experiências e acontecimentos nos campos de concentração pelos quais passou, e os “casos de estudo” que ele conseguiu observar, fruto das interações humanas num contexto de privação de vários níveis, como violência extrema, fome, dor física e emocional, morte e vida.

   A influência que o poder tem e como se expressa em diferentes personalidades.

   Nos campos de concentração as linhas de vida eram muito ténues, pela desnutrição, falta de condições nos abrigos comuns e doenças, Viktor percebeu que os que se entregavam ao desespero, à desistência e à depressão faleciam pouco tempo depois; ele conseguia, até, antecipar essas mortes por comportamentos específicos que os presos tinham quando desistiam da vida.

   Em certos acontecimentos extremos, em que ele foi confrontado com a possibilidade da morte, imaginava cenários mentais como, por exemplo, dar a mão à mulher e imaginar-se próximo dela, a dar palestras e ensinamentos em salas para grande número de pessoas. Ele considerou que foram estes os motivos que o mantiveram ligado à vida.

    Vivemos tempos de grande holocausto mental, em que as pessoas têm os seus corpos livres, mas as suas mentes aprisionadas. Em que o pensamento reflexivo e critico foi substituído por narrativas de opinião altamente polarizadas e que são repetidas pelas massas de formas totalmente inconscientes.

   O vaso está cheio, transbordante, cheio de tudo, menos daquilo que é da própria pessoa.

   O Grande Sentido, foi substituído por pequenos sentidos supérfluos, efémeros e vazios.

   Liberdade sem um sentido maior e um propósito é degradante, e nós estamos a assistir a essa degradação em primeira fila. A tendência é piorar porque, precisamente, se não temos um propósito transcendente como indivíduos e por consequência como coletivo, as probabilidades são grandes de perpetuarmos estes padrões de guerras, conflitos e divisões, indeterminadamente.

   Escrevo este texto especialmente para todos os pais com vista aos seus filhos, é importante guiar as crianças e jovens; para além da educação escolar, é necessário ter em vista um complemento de educação filosófica e moral.

   É importante perceber o grande sentido da criança/jovem, daquilo que realmente os liga à vida. Todos nós, sem exceção, temos um sentido, podemos dizer que é o nosso dom, é aquilo para o qual nascemos.

   É importante estabelecer uma estrutura nas rotinas da criança/jovem que os levem a ter tempo para desenvolver, de uma forma ativa, esse propósito; e neste caminho, o interessante é que os pais também vão poder beneficiar deste trabalho interior porque muitos dos seus aspectos são revelados através dos filhos.

   Este movimento acaba por fortalecer os laços familiares e concede uma estrutura de um valor inestimável para o desenvolvimento e continuidade da vida destas crianças e jovens.

   Mais do que dar um bom futuro aos filhos, pela via de bens materiais e valores financeiros, é tão ou mais importante construir em conjunto estas bases filosóficas e morais que geram prosperidade, e que nenhuma intempérie pode destruir.

   As nossas crianças e jovens estão a definhar na ociosidade digital, na falta de referências comportamentais reais que as possam inspirar e ajudar no futuro.

   Simbolicamente, se a mente morre a morte seguinte é a do corpo; sem um motivo não há razão para viver. Esta estrutura é decisiva, podendo evitar distúrbios comportamentais como o suicídio, as drogas e doenças.

   Quando percebermos que a liberdade e o tempo de que dispomos pode gerar benefícios ilimitados, de valor inestimável, não vamos querer abdicar.

Henrique Garcia - 29 de Março 2026

VIDAS  MECANIZADAS

    Sonhos que inventamos para matar saudades do passado de aventura sem mentira e sem artimanhas; muitas vezes, o sonho não é mais do que uma forma de estar mais perto dos outros e mais longe do nosso próprio ser. O que inventamos contra a monotonia é algo que combate o egoísmo que se apodera de cada um, por um futuro sem miragens em que a luz seja um guia capaz de combater o nefasto fatalismo com que nos debatemos no dia-a-dia, como um tirano da nossa tranquilidade.

    Para sermos cada vez mais nós, teremos que combater esta forma apressada de viver à mercê das intempéries da sociedade mecanizada e doentia, que nos enclausuram com exercícios de recalcamentos fantásticos que nos limitam as fronteiras do convívio e da própria existência no essencial da nossa liberdade.

    A contrapartida está na coragem de ter fé e avançar seguramente ao encontro dos outros, onde sentimos despertar a magia desta onda de busca dos simples. É aí que está a trajectória que respeita a nossa integridade íntima e nos fará recuperar as imagens da adolescência terna, onde a sinceridade das palavras e dos gestos se contrapõe à repressiva obsessão dos objectos que nos manipulam, artificialmente, contra a perfeição das coisas simples.

Joaquim Coelho, 18 de Maio de 2019

 

sábado, 3 de janeiro de 2026

Ano Novo - Governança em Contramão

 

A ESPERANÇA DESESPERADA

   Estamos no limiar do fim do ano que vem como quase todas as coisas importantes da vida: sem pedir licença e com um certo ar de déjà vu. Abre-se o calendário novo, ainda imaculado, como se fosse uma promessa, e fecham-se doze meses gastos, cheios de intenções que ficaram a meio caminho, ideias que envelheceram antes de nascer e projetos que já vinham do ano anterior - esse passado recente que fingimos não reconhecer.

   Chamamos a isso recomeço. Talvez por pudor. Talvez por medo de lhe chamar repetição.

   Há sempre essa tentativa íntima de alinhar o futuro: “para o ano é que é”. Para o ano cuidarei melhor de mim, para o ano farei aquilo que adiei, para o ano terei tempo. Mas o corpo, menos paciente do que a imaginação, vai deixando sinais. A saúde já não é uma abstração distante, é um bem negociável, frágil, dependente de filas, senhas e diagnósticos tardios. A idade avança sem metáforas e o tempo deixa de ser um aliado generoso para se tornar um credor exigente.

   E depois há o mundo. Esse mundo que entra pela televisão dentro, pelos jornais, pelas conversas repetidas, carregado de guerras que não acabam, conflitos que se normalizam, governos que administram a espera e nações que parecem incapazes de resolver aquilo que dizem ser essencial. A geopolítica cresce em tensão enquanto a vida comum encolhe em direitos. Fala-se de estratégias, alianças, interesses; vive-se com salários curtos, serviços longínquos e uma sensação difusa de abandono.

   Portugal, esse país de brandos costumes e paciências prolongadas, mantém a aparência de calma enquanto o tempo passa por cima das promessas. O SNS resiste como pode, a Justiça arrasta-se como sabe, o trabalho consome mais do que devolve e os idosos aprendem, em silêncio, que envelhecer é tornar-se invisível. Metade dos problemas fica sempre para depois, como se o “depois” fosse um lugar seguro e não apenas um adiamento crónico.

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   Chegados ao Ano Novo, pergunta-se: que pedir? Que o sistema funcione? Que a justiça seja justa? Que a saúde chegue a tempo? Que o trabalho não esgote a vida antes da reforma - se ela ainda vier? Pedidos modestos, quase constrangedores, num país que se habituou a chamar ambição ao simples funcionamento do essencial.

   E eu, indivíduo entre milhões, que posso pedir senão acesso? Acesso quando adoecer, quando fraquejar, quando já não souber defender-me sozinho. Não peço exceções, peço garantias mínimas. Não peço futuro glorioso, peço dignidade previsível. Mas até isso parece hoje um acto de fé.

   É aqui que nasce esta esperança estranha, quase contraditória: uma esperança desesperada. Não a esperança ingénua de que tudo mude, mas a esperança teimosa de que nem tudo piore. A esperança de que o fio do recomeço, por mais fino que seja, não se parta nas mãos de quem ainda acredita que viver não pode ser apenas resistir.

   O Ano Novo vem, afinal, sem novidades. Traz apenas o ritual, o calendário limpo e a ilusão necessária de que ainda vale a pena tentar. Talvez seja pouco. Talvez seja tudo. Porque enquanto houver essa esperança - mesmo cansada, mesmo irónica, mesmo ferida - ainda não desistimos completamente de nós, nem do mundo que insistimos em chamar comum.

                                28-12-2025 - João Gomes, in Facebook 

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OS RESISTENTES

   Há seres humanos que persistem em acreditar quando acreditar já não é cómodo. Não por desconhecimento do mundo, mas por lucidez suficiente para perceber que a realidade dominante não é sinónimo de verdade última. São os resistentes. Não marcham em bloco nem levantam bandeiras ruidosas; sobrevivem, antes, na obstinação silenciosa de quem se recusa a aceitar que a injustiça seja natural e a desigualdade inevitável.

   Carregam consigo ideologias feridas, muitas delas declaradas mortas pelos vencedores da história. Dizem-lhes que falharam - e falharam, é certo, não poucas vezes. Mas os resistentes sabem que muitas dessas falhas não nasceram das ideias em si, mas da sua captura: pela má condução política, pelo autoritarismo travestido de redenção, ou pela imaturidade de sociedades que ainda não compreendiam que a força coletiva não anula o indivíduo - protege-o.

   Vivem hoje cercados por um liberalismo económico que se apresenta como horizonte único, como se fosse uma lei da natureza e não uma construção histórica. Um sistema que absolutiza o mercado, privatiza o risco, socializa o fracasso e chama liberdade à sobrevivência competitiva. Um sistema que mede o valor humano pela produtividade, a dignidade pelo rendimento e a vida pela sua utilidade económica.

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   Nesse mundo, a precariedade deixou de ser exceção para se tornar condição existencial. O trabalho já não garante futuro; apenas adia a queda. A riqueza cresce, mas escorre para cima, concentrada em elites cada vez mais desligadas da vida comum. Fala-se de mérito para justificar heranças, de eficiência para legitimar cortes, de inevitabilidade para anestesiar consciências.

   Os resistentes não ignoram isto. Pelo contrário: é por verem com clareza que não desistem. Sabem que a promessa de uma sociedade mais justa foi traída, mas recusam aceitar que tenha sido uma ilusão. Recusam confundir o erro histórico com a falência moral da ideia de solidariedade. Continuam a acreditar que o trabalho e o fruto do trabalho não podem existir apenas ao serviço de poucos, enquanto muitos vivem numa permanente economia do medo.

   Chamam-lhes ingénuos. Sonhadores fora do tempo. Mas talvez sejam apenas aqueles que ainda não se renderam ao cinismo como forma superior de inteligência. Procuram a bondade acima do materialismo, a concórdia acima da disputa permanente, o bem comum acima da acumulação privada. Não porque ignorem o conflito, mas porque sabem que uma sociedade organizada exclusivamente em torno dele acaba por se devorar a si própria.

   Os resistentes não prometem paraísos. Sabem que nenhuma organização humana é perfeita. O que recusam é a normalização da injustiça, a glorificação da desigualdade, a ideia de que não há alternativa. Persistem não por esperança fácil, mas por responsabilidade ética. Porque desistir seria aceitar que o mundo é apenas aquilo que o poder permite - e nada mais.

   E enquanto houver quem resista assim, sem garantias, sem aplauso e sem recompensa, a história não se fecha. Fica suspensa. Inquieta. À espera de que alguém volte a lembrar que viver em sociedade não é competir até ao esgotamento, mas partilhar o risco, o trabalho e a dignidade de existir.

 

Maria Victória Campos  -  

Prometeu, andas a roubar o fogo dos deuses para dares aos homens?...
Fogo... consciência, espírito, transformação...
Como me identifico e revejo no seu sentir e pensar...
Resistir desta maneira que descreve, não é nenhum acto heróico e sim lúcido, como descreve magistralmente neste escrito tão inspirado e inspirador...
Obrigada, João Gomes...sempre...🥀🔥🙏🏽
 
 

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PATIFÓRIA GOVERNAÇÃO

    Peregrinamos pelas estradas da vida com esperança de alcançar a plenitude do conforto e da serenidade num ambiente feliz; mas, há tremendas dificuldades em ultrapassar os obstáculos premeditadamente colocados nos caminhos. São as instituições públicas sem atendimentos atempados; são os serviços de saúde persistentemente demorados; são os dinheiros públicos desviados para serviços de instituições privadas; são os governantes escolhidos a dedo, com fins de servir clientelismos lobistas. Talvez, alguns açoites bem aplicados nos prepotentes mandantes que nos atrofiam a vida, seria uma maneira de amansar a sua forma impetuosa de açambarcar e desbaratar os dinheiros e bens da nação, que nos pertencem e fazem falta à normalização do atendimento às necessidades dos cidadãos.

   Neste mundo em convulsão e com governantes impedrenidos, os caminhos são lamacentos e dificultam a chegada ao destino que um dia nos prometeram. A natural pretensão de encontrarmos a felicidade nas circunstâncias desta vida não pode ser frustrada por qualquer agiota com pretensões a governante.

   A governação deve ser abrangente e atenta aos necessitados e confortar os fragilizados que mais não têm do que queixumes e rogos lancinantes, que vós, sedentos de servir clientelas, não atendeis, por se verem sofredores esquecidos às portas do Serviço Nacional de Saúde. As crianças e os velhos jamais vos perdoarão a ausência de clemência e atenta compaixão, o que causa desconfiança perante o comportamento danoso e escabrosa tirania que mata qualquer sinal de esperança. Quando vemos os governantes, que deveriam proteger e dinamizar os serviços públicos ao serviço dos mais carenciados, atirar milhões de euros dos Serviços públicos, especialmente, do SNS para os bolsos dos privados e sanguessugas do erário público, temos que tomar posições preventivas no acto das nossas escolhas políticas.

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   Ao vermos esses governantes atentar contra os direitos legítimos dos cidadãos, descaradamente a escarnecer da desgraça dos mais humildes e desgastados, temos que sentir repulsa recriminatória, pois, ficarão circunscritos aos tiranos que nos consomem o pensamento, perturbam o essencial da vida e recusam os meios de sobrevivência.

   É estranho senhor primeiro-ministro que não se perturbe com as desastrosas decisões e desventuras, ao seguir o que lhe aprouver com o risco de tombar no tejadilho do esquife contruído à sua medida. A patifória decisão de nos enganar com a descida dos impostos e no aumento dos salários demonstra o instinto disfarçado com que menospreza os mais vulneráveis cidadãos reformados e a precaridade dos trabalhadores, ao criar situações causadoras de desassossego e ignorar os lamentos e desgraças que nos incomodam e causam ansiedade quanto ao futuro; assumiu a compostura de coveiro das instituições e serviços sociais do Estado; doloso atentado contra a Constituição da República.

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   Começo a ficar enojado por ver tais actos de malvadez em pessoas que acreditávamos como tendo alguma sensibilidade com os carenciados de apoios sociais, de assistência na saúde e acolhimento na velhice. Posso afiançar que a vingança pode chegar atrasada, mas não falhará na hora de votar.

     Temas actuais . Outubro de 2025   -  Joaquim Coelho

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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Russofobia-Pedagogia do Medo

 

GENERAL MANDON NA CANÇÃO DA GUERRA

O general francês Fabien Mandon, Chefe do Estado-Maior do Exército, fez recentemente soar os tambores da inquietação ao discursar perante a Comissão de Defesa da Assembleia Nacional. Numa intervenção que mais parecia um prelúdio de guerra do que um relatório técnico, o militar advertiu que o exército russo “pode ser tentado a continuar a guerra” na Europa e que a França deve “estar pronta para um choque em três ou quatro anos”.

A frase não passou despercebida. Foi noticia, noticia de noticias - e um alerta que, à primeira vista, parece um exercício legítimo de prudência estratégica. Mas à segunda leitura - e sobretudo à luz do contexto político - o discurso do general soa menos como uma previsão e mais como um ensaio de dramatização orçamental.

A canção começa: “o inimigo aproxima-se”

Há décadas que o Ocidente alterna entre o medo e o desdém face à Rússia. Mas, com a guerra na Ucrânia, a tensão ganhou nova utilidade: a da mobilização discursiva. Falar em “choque”, em “ameaça”, em “três ou quatro anos” é, em política, uma forma de marcar o tempo da urgência. Não se trata apenas de prever - trata-se de preparar consciências.

E aqui reside a astúcia do general: ao transformar o cenário hipotético em inevitável, ele cria o ambiente psicológico necessário para que o poder político abra os cofres. Coincidência ou não, o discurso deu-se na véspera da discussão parlamentar sobre o orçamento da Defesa e da Segurança Social. Enquanto os franceses debatiam cortes em apoios e novos impostos sobre vales de refeição, o general pedia “readiness” - prontidão. Ou seja, menos pão, mais pólvora.

O refrão: “preparem-se”

“Estar pronto para um choque” é uma expressão que ressoa bem nos media e provoca arrepios convenientes no público. Mas é também uma fórmula perigosa, porque naturaliza o estado de guerra como horizonte de estabilidade. O discurso do medo, quando repetido, instala-se como novo normal. A política, então, já não se faz de escolhas, mas de reflexos: gasta-se mais em defesa, corta-se mais no social, e tudo em nome de uma ameaça que permanece, curiosamente, sempre no futuro.

 

O perigo é duplo:

- internamente, cria-se uma aceitação passiva de medidas impopulares;

- externamente, reforça-se a narrativa de que o Ocidente vive obcecado por inimigos, o que alimenta a própria retórica russa.

A resposta de Moscovo: contra-canto diplomático

A Embaixada da Rússia em Paris reagiu com a indignação previsível, mas com uma precisão cirúrgica. Acusou o general de “histeria” e insinuou que o seu discurso não passava de um instrumento para justificar o aumento das despesas militares. E, convenhamos, há algo de verdadeiro nessa leitura: a ameaça russa serve hoje como pretexto perfeito para o rearmamento europeu, num continente que há muito havia esquecido as trincheiras e preferia os subsídios.

O general Mandon, ao dramatizar o risco, oferece à classe política o álibi ideal para legitimar orçamentos de guerra num tempo de paz.

A diplomacia russa pode ser cínica - mas não é burra.

A partitura oculta: a economia do medo

A retórica da ameaça não é inocente. Cada vez que um militar fala em “choque iminente”, as ações das empresas de defesa sobem discretamente; cada vez que um político fala em “resiliência europeia”, nasce mais um contrato para blindados, drones ou sistemas de mísseis. A guerra, mesmo quando é apenas uma hipótese, move dinheiro. E o medo, quando bem administrado, move vontades.

O que Mandon fez foi afinar a orquestra: as notas do medo soam melhor quando o público já está predisposto a ouvi-las. E o público europeu, saturado de crises e desconfianças, está no ponto certo para aceitar um novo refrão - o da “segurança antes de tudo”.

Epílogo: a política da canção

Ninguém contesta o direito de um general a preparar o seu exército. Mas há uma diferença entre preparar soldados e preparar sociedades para a ideia de que a guerra é inevitável. Quando o discurso da defesa se transforma em narrativa da necessidade, a política perde o seu timbre civil. E quando o medo se torna a língua franca da Europa, a democracia passa a ser cantada em surdina.

O General Mandon pode não estar a compor uma sinfonia bélica - mas está, sem dúvida, a escrever a partitura de uma nova pedagogia do medo. E o problema das canções é que, quando bem afinadas, o povo acaba sempre por cantar junto.

João Gomes

31-10-2025

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Maria Victória Campos

O que, sinceramente me espanta, é a ignorância de que o cidadão comum sofre sobre quem e o que é a Rússia...

Isto só se explica com o uso habitual desse bicho papão chamado MEDO que tanto estragos causa à Humanidade...

E isto é que me assusta e entristece....

Mas desde quando a Rússia pensa vir por aí abaixo atacar a Europa?...

A Ignorância é que mata, mais do que tanques, drones e toda a aviação moderna...

Pobre e triste de quem tem Medos irracionais...chamam-se Fobias...e criam-se tantas...

Por aqui se vê a grande ausência de uma Educação que crie pensadores livres...

Obrigada, caro João Gomes 🥀🙏🏽

 

Jorge Madureira

No fundo é mais uma besta a querer incutir medo nas populações francesa e europeia, nada de novo. O que é verdadeiramente importante é essas populações dizerem claramente se querem ir para a guerra ou não!!! Eu não quero e irei a todas as manifestações populares contra a guerra e contra a clique criminosa e quadrilheira de bruxelas!!!! Nas próximas eleições europeias e mesmo nacional é urgente correr com estes criminosos de Bruxelas!!!