sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Ucrânia e UE - Colapso Anunciado

 

NOTA Prévia:

Há muito tempo que a Europa perdeu o rumo e a União Europeia ficou refém da incompetência dos seus dirigentes. Gente sem capacidade de visão política mundial, perderam o tino e conduzem a Europa para a insolvência dos seus princípios básicos e falência financeira: criar um espaço de convivência pacífica e proteccção social das populações. Ora, perdidos os valores solidários da comunidade, perdidos os importantes meios de produção e desenvolvimento, a UE está atulada em dívidas e compromissos financeiros que jamais conseguirá cumprir, especialmente com os Estados Unidos da América. 

Assim, com governantes predominantemente acéfalos, perdidos nas nuvéns da ambição desmedida, o futuro dos cidadãos começa a ficar miseravelmente perdido nas catacumbas dos gabinetes de Bruxelas.

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Propaganda, Negação e o Sacrifício da Ucrânia
 
É hoje praticamente impossível abordar a guerra na Ucrânia sem reconhecer o ambiente intelectual peculiar em que o debate foi sendo moldado. Desde muito cedo se tornou evidente que qualquer tentativa de formular uma crítica ponderada — ou simplesmente de reconhecer a complexidade do conflito — era recebida com uma agressividade quase ritual. Bastava insinuar que o governo de Zelensky não correspondia ao ideal romântico de liderança patriótica, ou recordar que a queda de Bakhmut, em Junho de 2023, revelava a derrocada estratégica de Kiev, para que o autor dessas observações fosse imediatamente classificado como inimigo interno, marioneta do Kremlin ou traidor moral do “Ocidente democrático”.
A resposta automática — “Então vai para Moscovo!” — funcionava como espécie de senha emocional que dispensava análise, suspendia o pensamento crítico e bloqueava qualquer tentativa de discutir os factos. Não era apenas uma reacção infantil; era um reflexo bem estudado de uma cultura política que já não se alimenta da discussão racional, mas de slogans que funcionam como marcadores identitários.
O que se passou na Europa, sobretudo após 2022, não foi, portanto, apenas a construção de uma narrativa política: foi a consolidação de uma cultura de propaganda. Não a propaganda clássica, ingénua, de contornos patrióticos, mas uma propaganda mais sofisticada, regressiva na sua essência e emocionalmente manipuladora. Uma propaganda que se sustenta tanto no que afirma como, sobretudo, no que deliberadamente omite.
Ao longo dos últimos anos, assistiu-se à fusão progressiva entre discurso político e discurso mediático, produzindo um sistema de informação que opera segundo lógicas de mobilização emocional permanente. A Ucrânia tornou-se, neste sentido, um laboratório privilegiado. As omissões, as distorções e as leituras unilaterais funcionaram como dispositivos destinados a produzir o ambiente psicológico necessário para legitimar uma confrontação estratégica com a Rússia.

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O mais paradoxal, contudo, é que mesmo quando surgiram sinais ténues de racionalidade por parte de Kiev — nomeadamente a disponibilidade para explorar caminhos diplomáticos — não foi a Ucrânia quem determinou o rumo da política de guerra. Foram os governos europeus que, com uma mistura de voluntarismo moralista e arrogância civilizacional, decidiram que negociar com Moscovo equivaleria a capitular perante o inimigo. Assim, a soberania ucraniana, tantas vezes evocada em discursos inflamados, foi rapidamente relativizada sempre que se tornava inconveniente para os objectivos estratégicos de Bruxelas e Washington.
Convém recordar um ponto essencial, frequentemente varrido para debaixo do tapete: Zelensky foi eleito em 2019 com um mandato explícito de pacificação. Os ucranianos votaram num candidato que prometia pôr termo a um conflito que já durava desde 2014. Esse mandato foi, no entanto, progressivamente esvaziado, primeiro pela pressão das forças nacionalistas ucranianas e depois — de forma muito mais profunda — pela realpolitik ocidental, que sempre encarou a Ucrânia como instrumento e não como sujeito político.
A cronologia não mente: o conflito não teve início em 2022, mas numa sequência de decisões geopolíticas que procuraram transformar a Ucrânia num tampão militar e num vector de pressão estratégica contra Moscovo. É neste contexto que deve ser entendida a crescente intromissão do chamado “Ocidente colectivo” nos processos eleitorais, legislativos e militares ucranianos. A Ucrânia foi sendo moldada como peça de um xadrez cujo tabuleiro nunca controlou.
À medida que a guerra avançava e a realidade se impunha — cidades devastadas, um país exaurido, perda demográfica irreversível, uma economia reduzida à dependência externa — a narrativa oficial limitou-se a insistir num voluntarismo que já não enganava ninguém. A Europa, em vez de reavaliar os seus pressupostos, reforçou-os. O mecanismo psicológico é típico de todas as grandes ilusões políticas: quando a realidade ameaça desmentir a narrativa, reforça-se a narrativa para afastar o desconforto cognitivo.
A ironia final deste processo reside no facto de que muitos dos governos europeus envolvidos sabiam perfeitamente que estavam a empurrar a Ucrânia para um confronto impossível. Sabiam que a Rússia encarava a aproximação militar da NATO como ameaça existencial. Sabiam que estavam a lidar com um país marcado por tensões internas profundas, por redes nacionalistas radicais e por níveis de corrupção estrutural que incompatibilizariam qualquer candidatura séria ao modelo democrático europeu. Apesar disso, prosseguiram como se operassem num laboratório sem custos humanos.

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Os acontecimentos mais recentes — incluindo investigações que apontam responsabilidades de agentes ucranianos em actos de sabotagem, como no caso das explosões do Nord Stream — expõem uma contradição moral difícil de ignorar: aqueles que proclamam defender a liberdade e a ordem internacional aceitaram, na prática, uma política que instrumentaliza povos inteiros para alcançar objectivos geoestratégicos que já nem eles próprios conseguem justificar integralmente.
A história demonstrará, com a sua habitual sobriedade cruel, que o Ocidente sacrificou a Ucrânia não por altruísmo, nem sequer por mero cálculo estratégico, mas por uma incapacidade estrutural de admitir que a sua própria narrativa estava errada desde o início. E quando a incapacidade de reconhecer erros se transforma em programa político, o preço é sempre pago por terceiros — nunca pelos que tomam as decisões.
A Ucrânia foi, assim, transformada numa das mais trágicas vítimas de uma era marcada por propaganda, cinismo e uma crescente deserção das responsabilidades morais da política. No centro desta tragédia não está apenas um país destruído; está a revelação inquietante de uma Europa que perdeu o sentido da prudência e o respeito pela verdade.
E talvez seja isto, no fim, o mais perturbador.
Tenho dito
1/12/25
ADRIANO PIRES
 
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SIMBOLISMO, SEM GRANDES PRENDAS

A encenação de um encontro - e as suas limitações
Hoje, no Eliseu, o encontro entre Zelensky e Macron pretendeu mostrar união e empenho - uma fotografia de diplomacia reforçada, uma imagem de apoio ocidental renovado à causa ucraniana. A agenda oficial fala de “paz justa e duradoura”, em coordenação com os esforços dos Estados Unidos e os diálogos de Genebra.
Mas a substância, a este ponto, permanece escassa.
O plano americano, de 28 pontos - amplamente criticado por favorecer Moscovo - teve de ser revisto, e mesmo assim alimenta dúvidas em muitas capitais europeus. A componente militar de apoio parece esbarrar no receio político de muitas lideranças ocidentais, sobretudo aquelas sob pressão interna, o que reduz o que originalmente se podia vislumbrar como compromisso real de segurança.
Uma década de promessas não cumpridas - e a sombra de 2014
Desde 2014, com os Acordos de Minsk, a liderança ucraniana optou por caminhos políticos e militares de resistência e pressão - nomeadamente em Donbass - em vez de cumprir integralmente os acordos de cessar-fogo e descentralização. Isso condicionou, desde logo, a credibilidade da via diplomática.
A insistência, ao longo dos anos, numa aliança de facto com Washington - e numa dependência das políticas de pressão dos EUA sobre Moscovo - consolidou uma trajetória que hoje se aproxima de um beco sem saída. O plano americano atual surge como herdeiro dessa aposta: Kiev, sem garantias sólidas, não tem margem para reivindicar grandeza; arrisca-se, sim, a perder o que tinha como esperança.
No momento em que se reavivam negociações de paz, o custo da escalada militar e da dependência externa assume proporções dramáticas: território perdido, população devastada, infraestrutura destruída. A “vitória” prometida, se vier, dificilmente será radiosa - mais provável é uma paz imposta pelas circunstâncias, com compromissos umbilicais frágeis, à espera do primeiro desafio de Moscovo.
O “esgar” - rostos que falam mais do que palavras
Nas imagens da recepção de hoje, nota-se algo mais do que cortesias protocolares. O olhar de Zelensky, tenso; o semblante sério de Macron; o gesto contido, quase de obrigação. Mesmo os acompanhantes - incluindo as respetivas esposas - parecem carregar o peso do simbolismo: não há sorrisos fáceis, não há gestos espontâneos de confiança.
Esse “esgar” - mistura de apreensão, diplomacia cansada e consciência de um contexto frágil - transmite mais do que palavras: revela incerteza. A cena pública busca transmitir unidade, mas revela, no corpo, no rosto, o receio de quem sabe que “apoiar” hoje pode significar deixar para amanhã o desenlace do problema.

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A paz que vem - provável - mas sem glória
É possível que, nos próximos meses, a guerra esfrie. Que a diplomacia, os bombardeamentos exaustivos e o desgaste bélico conduzam a um cessar-fogo. Talvez haja trocas, garantias provisórias, alguma reconstrução. Mas dificilmente será a paz dos sonhos de 2014 - ou mesmo dos apelos de 2022.
Quando chegar esse momento, Kiev vai, ou deveria, olhar para trás e perceber que ao longo da década fez escolhas: apostar tudo na resistência militar e na pressão ocidental como forma de assegurar futuro. Se esse futuro chegar com concessões territoriais, com condicionamentos à soberania, com dependência externa reforçada - estaremos, de facto, perante uma derrota estratégica.
Porque, afinal, o que se vê hoje no Eliseu é o coroar de anos de reforço militar, promessas geopolíticas e diplomacia de palco - mas sem que essa retórica tenha gerado, de facto, a segurança real que prometia e a compreensão das razões que tinha um lado considerado inimigo.
 
02-12-2025
João Gomes in Facebook
 

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segunda-feira, 14 de julho de 2025

O Medo Sufoca a Liberdade

 

Atribulações no Carrocel da Vida

1 – PREMISSA: Viver é um desafio que muitos não conseguem disputar por falta de coragem ou maturidade para entender a sociedade. Mas, tudo que fazemos terá reflexos na escolha dos nossos caminhos. A vida é uma luta permanente de perfeição e realização. Quando desistimos, perdemos preciosas hipóteses de construir e realizar o que mais nos faz crescer e consolidar o sucesso esperado para viver com mais conforto e satisfação.

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2 - Ao longo da vida em permanente vigilância, passei perigos vários, ultrapassei obstáculos inimagináveis, sofri injustiças; sendo militar graduado e comandante de grupo de combate, por impedir um presumível massacre de população Makonde, fui entregue à PIDE e encarcerado num fortim na Ilha do Ivo, em Moçambique (perante a passividade e cobardia do Comandante Seixas)! Aí confirmei que o poder dos homens sem carácter se acomoda na cobarde fraqueza das decisões.

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3 - Também sofri com os sensores do regime, que riscavam os meus escritos jornalísticos sobre as realidades da sociedade que incomodavam os poderes carunchosos, em tempo de guerras ultramarinas. Confrontei os sistemas incapazes de evoluírem no mundo em permanente mudança e avancei sem medo de alumiar o caminho da sabedoria dos meus companheiros para que melhorassem em literacia e ciência, proporcionando mais capacidades e atributos que lhes dessem um futuro com melhores condições de vida.

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4 - Investiguei dogmas, filosofias e doutrinas para perceber as origens e fundamentos e seus efeitos na sociedade; recolhi mais sabedoria para limpar as dúvidas que pairavam nas sombras do caminho. Nunca tive medo de caminhar no desconhecido até encontrar a luz que ilumina a realidade na essência da verdade irrefutável; assim, libertei a inteligência para manter a lucidez que me faz ver o mundo com mais transparência. Sabendo que a ignorância é o refúgio dos acomodados, sempre tento vestir o fato da iniciativa e levar por diante os projectos que podem melhorar o futuro; sabendo que terão muito mais efeitos práticos se tiver colaboradores prestáveis e firmes.

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5 - Porque assisti a tenebrosas formas de defraudar os fracos e humildes, combati e denunciei prepotentes dirigentes empresariais, teimosamente agarrados ao poder e criminosamente atentando contra os direitos dos trabalhadores. Não tive medo das represálias pelas denúncias oficializadas nos organismos do Estado e nos Tribunais.

6 - Cheguei a um tempo em que não tenho motivo para me preocupar com ninharias, mas olho o horizonte com esperança de que haverá sempre alguém a lutar por um mundo melhor. Pois, continuarei forte e lúcido para ajudar as pessoas a contrariar as injustiças, a denunciar as mentiras da comunicação social e seus palradores amestrados; jamais deixarei de divulgar cultura com sentido altruísta na defesa da dignidade humana.

 Foi o tempo que temperou a minha existência no desafio permanente de realizar. Venho de longe, sempre equilibrando o tempo entre a moderada vida nos folguedos e a busca do conhecimento sociológico que permite melhor conhecer os meus semelhantes e com eles criar a empatia para realizações mais abrangentes. 

Já não tenho tempo para correr atrás de ilusões fantasiosas, mas, ainda terei tempo e vontade de procurar a verdade nas sombrias teias ardilosamente construídas para nos manipularem; pois, precisamos perceber por que a realidade se apresenta travestida de fantasiosas roupagens refulgentes, valorizando as coisas fúteis.

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7 - Por ter passado situações complicadas e perigosas ao longo da vida, em contratempo às convenções abstratas, mesmo privado de liberdade pessoal e financeiramente prejudicado, venci a injúria e renovei a esperança na certeza de que vale a pena insistir e progredir com mais força até à irradicação das injustiças e dos preconceitos ideológicos que são um entrave medonho contra o desenvolvimento social e cívico. A plenitude da vida é um teorema que nos confirma a possibilidade de realizar os sonhos possíveis com prioridade. Isto é viver com verdade na utilidade da vida no tempo.

 Na plenitude de todo o tempo que dispomos, é importante ter amigos que servem de inspiração para realizarmos grandes obras em favor da comunidade e contribuir para um mundo melhor. Essa é a essência da felicidade partilhada.

8 - NOBREZA: Habituei-me a procurar e valorizar a verdade, apreciando a lealdade e a respeitar as diferenças razoáveis; é com imensa satisfação que vejo a luz da realidade da vida e segui o melhor caminho sem enganos. Mas, sinto que à minha volta ainda há muita gente que acredita em fantasias sem conteúdo verdadeiro, porque vivem na escuridão e, muitas vezes, as sombras são a sua realidade.

Posso sentir divergências em alguns pontos de vista sobre a sociedade e a realidade social, mas isso não quer dizer que alguém está errado… apenas vemos as coisas de lugares diferentes, com conhecimentos diferentes, com a mente mais ou menos lúcida e limpa.

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9 - Todo o pensamento emite sinais emotivos que podem influenciar a mente de pessoas com menor energia e que alteram a realidade à nossa volta. O equilíbrio entre os contrários é o fulcro da justiça.

 O equilíbrio entre as ideias, desejos e emoções é o fulcro da organização da vida em harmonia com a natureza. A perda do equilíbrio é escorregar para a perigosa rampa da implacável destruição dos sonhos. 

10 - Cheguei a um tempo da vida em que não procuro satisfazer sonhos nem seguir atrás de ilusórias fantasias. Procuro viver as realidades com momentos prazerosos primando pela conjugação da delicadeza entre as pessoas que sabem viver harmoniosamente com a natureza e sentem a amizade como uma suave envolvência no respeito e confiança.

Não há nada mais importante do que viver com a liberdade de realizar e sentir o retorno como o eco da nossa voz ou vontade de viver. O sucesso é o retorno de muito trabalho com empenho e humildade. Porque a vaidade destrói o carácter, é inimiga da humildade e tolhe a capacidade de realizar.  

11 - CERTEZAS: Quem tolera a hipocrisia e o fingimento, facilmente entra em jogos de faz de conta, aceita a falsidade e consente viver num mundo de aparências. Estas pessoas não cabem no meu círculo de amigos, porque preferem conversas vazias, superficiais e sem conteúdo reflexivo. São ocas… e usam máscaras!

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12 - Jamais esqueci a minha primeira revolta contra a injustiça. No final do primeiro ano da escola primária!... em Valpedre, Penafiel.  Apesar de ser considerado um aluno exemplar e com vocação para a escrita, por escrever redações das classes acima, levei meia dúzia de palmatoadas como todos os outros alunos da sala! Depois da professora insistir em perguntar quem mijou atrás da porta de entrada, ninguém respondeu… furioso, pela falta de consideração e injustas palmatoadas, saí ao recreio, enchi a saca de pedras e parti os vidros de parte das janelas da escola. No ano seguinte fui para a escola de S. Vicente. 

FIM: O mundo não respeita intenções; o que conta são as vivências, as realizações. Mas o mais importante é sentirmos satisfação e estar de bem com quem merece respeito e amizade.

V. N. de Gaia, Julho de 2024

Joaquim Coelho (peregrino por natural dedicação)

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domingo, 13 de julho de 2025

Há Liberdade nas Ditaduras?

 

EXPRESSÃO DA LIBERDADE

1. A liberdade de expressão para o ser realmente deve ser uma expressão da liberdade. A liberdade é um “órgão” espiritual que, ao contrário do que muitos pensam, não é indiferente ou neutro perante a realidade, mas sim inclinado ou orientado para a verdade e o bem. A liberdade é a capacidade de se auto-determinar na realização do bem. É certo que em virtude do pecado original, do pecado do mundo (o “ambiente” de pecado) e do pecado actual (o de cada um) esta inclinação encontra resistências, enganos, ilusões, podendo distorcer-se e perverter-se. Por isso, aquilo que é essencialmente uma revelação da dignidade da pessoa no seu decidir e agir pode ser usado para a degradar e corromper.

Daqui se costuma concluir que “a liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade do outro”. Não conheço a origem deste dito, nem o seu significado genuíno. Mas a formulação, tal como soa, não me parece feliz. De facto, somente a coexistência de liberdades favorece, nutre e vivifica a liberdade de cada um. E uma vez que cada pessoa só se realiza humanamente enquanto é responsável pelo seu decidir e agir, importa exercitar-se na tolerância para com os indivíduos que erram ou caiem (afinal, de algum modo, todos nós) na sua demanda da verdade e do bem. A liberdade de expressão é então um reconhecimento da dignidade da pessoa, uma possibilidade de se auto-comunicar, de contribuir para o bem comum, de aprendizagem, de correcção, de se enriquecer acolhendo os outros na sua auto-doação, pela expressão.

2. Se a liberdade de cada um se afirma na coexistência de liberdades isso significa que estas são entre si co-responsáveis, que, na sua relação, são o húmus que sustenta e possibilita a realização em plenitude da liberdade de cada qual. Por isso, cada um é responsável pelo bem comum, isto é, pelo bem de todos e de cada um, pela liberdade de todos e de cada um. Assim, quem transforma a liberdade de expressão, exorbitando-a, em vontade de poder (na acepção negativa desta expressão), escraviza-se à idolatria de si mesmo — ao procurar dominar os outros, a sua deles liberdade, destrói a seiva que alimenta a sua, acabando por fenecer. Ao mutilar a relação essencial do seu eu com a verdade e o bem na sua entrega aos outros, ao isolar-se, ao ensoberbecer-se, é manipulado pelo caos, tornando-se “missionário” da desagregação, da dissolução, da morte.

Compreende-se, pois, que a liberdade tenha de se defender recorrendo ao direito natural, isto é, à verdade universal (que por sê-lo é a todos acessível), reconhecida pela razão, capaz de critério e de discernimento justos. O direito positivo, que não pode opor-se ao direito natural sob pena de se transformar na expressão dos interesses dos mais fortes, deve usar as suas capacidades de modo a potencializar as liberdades garantindo a coexistência das mesmas.

3. Compete, pois, ao direito dissuadir, prevenir e punir os abusos da liberdade de expressão. Que num estádio de futebol, por exemplo, alguém grite falsamente que há uma bomba, gerando o pânico, com todas as consequências que daí podem advir é claramente um abuso da liberdade de expressão. Também é evidente que a publicitação do consumo de droga constitui um atentado à liberdade. Reivindicar a liberdade de expressão para incitar ao sexo, fora de um contexto de amor verdadeiro e irrevogável, é claramente um abuso de quem tem poderosos interesses económicos e uma agenda tenebrosa. O direito deve salvaguardar a moralidade pública (o que consta aliás das nossas leis, embora sejam letra morta), porque esta é fonte de liberdade.

 

Do mesmo modo que não é um atentado à liberdade de expressão impedir a publicitação do incesto, da pedofilia ou do consumo de droga, também os grandes meios de comunicação social, por exemplo, que nos dias de hoje são dotados de um poder imenso de modelar e manipular as consciências deviam ser sujeitos a um rigoroso escrutínio jurídico que os penalizasse duramente pelos sistemáticos atentados à dignidade e à liberdade das pessoas. Tanto mais que estas, abandonadas a si mesmas, não têm possibilidade nem capacidade de defesa adequadas às injustiças de que são vítimas. Em nome da liberdade de expressão estes poderosíssimos meios recorrem habitualmente a uma censura selectiva, ignorando sistematicamente o que não convém aos seus objectivos, e distorcem acontecimentos e opiniões, sem que uma grande multidão dos receptores, possa sequer ter disso consciência.

Num conluio entrecruzado de interesses económicos, políticos/ideológicos e comunicacionais a vontade de poder manipula inclusive os instrumentos jurídicos — elaborados para garantir a liberdade de expressão e prevenir os seus abusos —, para perseguir e silenciar todos aqueles que legitima e responsavelmente se exprimem contra a tirania da mentalidade dominante opondo-se ao totalitarismo que subjuga e aliena a liberdade.

16 Jan 2021

Padre Nuno Serras Pereira 

 

         NINGUÉM ESTÁ BEM NEM EM LADO NENHUM 

    De ditaduras já se ouve falar há muito tempo. É verdade que nenhum sistema político gosta de ser posto em questão ou ameaçado por uma oposição. Quando surge a ameaça, mais real ou fictícia, logo os apoderados de qualquer regime, se ainda tiver alguma fibra, concitam os seus esforços para eliminar a oposição, seja política, seja fisicamente. As ditaduras do século XX bem nos falam disto e continuam a falar-nos na Coreia do Norte, na Venezuela, em Cuba ou na China comunista-capitalista.

     No mundo ocidental, União Europeia e América do Norte, as modernas ditaduras do século XXI são mais sofisticadas, as coisas fazem-se mais às escondidas, pela calada. Sim, há outros meios: o enfraquecimento cultural, o “abaixo connosco”, “identity politics”, legislações contraditórias (muitas vezes contra a própria Constituição) e arbitrárias, Big Tech e a tentativa de monopolizar a informação, multas, ameaças de represálias arbitrárias e ilegais para quem não afina pela batuta do politicamente correcto e ousa alternativas. Será preciso nomear exemplos?

   Chegámos hoje a um ponto em que ninguém está bem em lado nenhum. Comecemos por pensar nos não nascidos. Quantos não conseguiram escapar à chaga do aborto? Quantos não viram a sua vida ceifada com toda a violência sem saber porquê? Hoje, nem na barriga da mãe os não nascidos estão seguros. Pelo menos aqueles 16.000 que todos os anos são eliminados sem culpa nenhuma em Portugal. 

   Sempre que nasce uma criança temos que pensar: conseguiu escapar a uma série de barreiras até chegar aqui, em particular a uma ameaça real que a lei desde logo colocou sobre a sua cabeça. E respiramos fundo…

   Mas depois vem a escola. E aí também as crianças não podem estar em paz, com as tentativas de redesenhar as suas identidades através da ideologia do género, da apologia do homossexualismo e do transexualismo, abordagens que muitos pais noutro contexto considerariam abusos sexuais, mas nas escolas, misteriosamente, não consideram. E respiramos fundo se e quando um filho ou neto sai da escola como ele sempre foi…

   Na vida adulta também é preciso ter cuidado com a língua e com o teclado do computador, não vá o vizinho, o colega de trabalho ou o Big Tech denunciar qualquer opinião heterodoxa que proferimos ou escrevemos e estamos tramados porque vem a ameaça do desemprego, da multa, do tribunal, ou até da prisão, porque não podíamos ter desagradado com as nossas críticas à sociedade dos pseudo-ofendidos. Quando muito as críticas autorizadas são apenas para o futebol, para a côr dos automóveis (desde que não sejam eléctricos) e mesmo assim falar de cores já não é muito seguro, pode acabar mal. Cuidado também com o género das palavras, referências ao estado do clima, também podem trazer problemas de negacionismo. O mais seguro, mesmo, é estar calado. E viva a liberdade de expressão.

   Por fim, vem a terceira idade, e com ela as doenças e a suposta inutilidade dos idosos e doentes terminais. Muitos acharão que são um problema, um peso, para a economia global que é preciso resolver. Por isso, lembraram-se da eutanásia, tão solidários e “compassivos” que eles são. O truque é bom de ver: com uma lei para que os idosos e doentes terminais se sintam um peso para a sociedade e inúteis, é mais fácil convencê-los a aderir à vontade do legislador que é a eutanásia. Se essa intenção não interessa ao legislador, então porque legislam? Será que existe alguma legislação que não interesse ou se faça contra a vontade do legislador, que são os políticos? O primeiro e principal interesse é do legislador, do político, para despachar o inútil idoso ou doente terminal.

   Resumindo e concluindo: sempre e cada vez mais ameaçados. Antes de nascer com o aborto; na infância e na juventude, na escola, abusos às crianças e jovens; na vida adulta com denúncias e delitos de opinião, ameaças de desemprego, multas, tribunais, para quem ousar criticar o politicamente correcto; no fim da vida, a eutanásia para os idosos e doentes terminais tidos por inúteis, lixo para a reciclagem.

Com este sistema ditatorial nunca ninguém está em paz, sempre sob fogo.

O cúmulo da hipocrisia é um governo e um parlamento que se desfazem em preocupações (fingidas) e dizem tudo ter feito para poupar vidas durante a pandemia do vírus chinês, simultaneamente maquinarem a favor da eutanásia. Então para quê tanta preocupação com os que morrem com a pandemia, que são maioritariamente idosos e doentes com complicações crónicas, portanto inúteis?

20 Jan 2021

Manuel Brás

 

Temas Liberais em Análise

1 - Muito bom desempenho de PNS, malgré tout, frente a um Rui Rocha cheio de anos 90, com o tal afã de tudo privatizar e um ódio já anacrónico ao Estado. O espectro de Milei já paira como uma doença infecciosa sobre os nostálgicos das solturas que trouxeram a Europa, os EUA e o mundo ao quase colapso da anarquia liberal. Em suma, ninguém quer viver num condomínio com piscina, segurança e cercas eléctricas, quando tem ao lado uma favela a perder de vista habitada por sub-cidadãos sem hospital, sem escola e sem emprego estável.

Miguel Castelo Branco 

2  - Elvira Fernandes – essa do Rui Rocha, na doutrina da Iniciativa Liberal, denota uma formação nostálgica destinada àqueles que não querem pagar impostos ou para jovens que nunca trabalharam e sonham em ser ricos.

  


3 - Análise de Carlos Branco 

É muito preocupante a trivialização da anormalidade. Eu não tinha idade para participar nas ações que conduziram ao “dia inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio”, como cantou a poetisa, mas não hesito em afirmar que se a tivesse lá teria estado. Por isso, não posso permitir que ideias retrógradas e fascizantes desta índole, que devem ser condenadas, possam prevalecer na nossa sociedade. A Inquisição ainda está presente entre nós, com muitos candidatos a juízes do Santo Ofício. Algo errado aconteceu.

(Carlos Branco)