sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Russofobia-Pedagogia do Medo

 

GENERAL MANDON NA CANÇÃO DA GUERRA

O general francês Fabien Mandon, Chefe do Estado-Maior do Exército, fez recentemente soar os tambores da inquietação ao discursar perante a Comissão de Defesa da Assembleia Nacional. Numa intervenção que mais parecia um prelúdio de guerra do que um relatório técnico, o militar advertiu que o exército russo “pode ser tentado a continuar a guerra” na Europa e que a França deve “estar pronta para um choque em três ou quatro anos”.

A frase não passou despercebida. Foi noticia, noticia de noticias - e um alerta que, à primeira vista, parece um exercício legítimo de prudência estratégica. Mas à segunda leitura - e sobretudo à luz do contexto político - o discurso do general soa menos como uma previsão e mais como um ensaio de dramatização orçamental.

A canção começa: “o inimigo aproxima-se”

Há décadas que o Ocidente alterna entre o medo e o desdém face à Rússia. Mas, com a guerra na Ucrânia, a tensão ganhou nova utilidade: a da mobilização discursiva. Falar em “choque”, em “ameaça”, em “três ou quatro anos” é, em política, uma forma de marcar o tempo da urgência. Não se trata apenas de prever - trata-se de preparar consciências.

E aqui reside a astúcia do general: ao transformar o cenário hipotético em inevitável, ele cria o ambiente psicológico necessário para que o poder político abra os cofres. Coincidência ou não, o discurso deu-se na véspera da discussão parlamentar sobre o orçamento da Defesa e da Segurança Social. Enquanto os franceses debatiam cortes em apoios e novos impostos sobre vales de refeição, o general pedia “readiness” - prontidão. Ou seja, menos pão, mais pólvora.

O refrão: “preparem-se”

“Estar pronto para um choque” é uma expressão que ressoa bem nos media e provoca arrepios convenientes no público. Mas é também uma fórmula perigosa, porque naturaliza o estado de guerra como horizonte de estabilidade. O discurso do medo, quando repetido, instala-se como novo normal. A política, então, já não se faz de escolhas, mas de reflexos: gasta-se mais em defesa, corta-se mais no social, e tudo em nome de uma ameaça que permanece, curiosamente, sempre no futuro.

 

O perigo é duplo:

- internamente, cria-se uma aceitação passiva de medidas impopulares;

- externamente, reforça-se a narrativa de que o Ocidente vive obcecado por inimigos, o que alimenta a própria retórica russa.

A resposta de Moscovo: contra-canto diplomático

A Embaixada da Rússia em Paris reagiu com a indignação previsível, mas com uma precisão cirúrgica. Acusou o general de “histeria” e insinuou que o seu discurso não passava de um instrumento para justificar o aumento das despesas militares. E, convenhamos, há algo de verdadeiro nessa leitura: a ameaça russa serve hoje como pretexto perfeito para o rearmamento europeu, num continente que há muito havia esquecido as trincheiras e preferia os subsídios.

O general Mandon, ao dramatizar o risco, oferece à classe política o álibi ideal para legitimar orçamentos de guerra num tempo de paz.

A diplomacia russa pode ser cínica - mas não é burra.

A partitura oculta: a economia do medo

A retórica da ameaça não é inocente. Cada vez que um militar fala em “choque iminente”, as ações das empresas de defesa sobem discretamente; cada vez que um político fala em “resiliência europeia”, nasce mais um contrato para blindados, drones ou sistemas de mísseis. A guerra, mesmo quando é apenas uma hipótese, move dinheiro. E o medo, quando bem administrado, move vontades.

O que Mandon fez foi afinar a orquestra: as notas do medo soam melhor quando o público já está predisposto a ouvi-las. E o público europeu, saturado de crises e desconfianças, está no ponto certo para aceitar um novo refrão - o da “segurança antes de tudo”.

Epílogo: a política da canção

Ninguém contesta o direito de um general a preparar o seu exército. Mas há uma diferença entre preparar soldados e preparar sociedades para a ideia de que a guerra é inevitável. Quando o discurso da defesa se transforma em narrativa da necessidade, a política perde o seu timbre civil. E quando o medo se torna a língua franca da Europa, a democracia passa a ser cantada em surdina.

O General Mandon pode não estar a compor uma sinfonia bélica - mas está, sem dúvida, a escrever a partitura de uma nova pedagogia do medo. E o problema das canções é que, quando bem afinadas, o povo acaba sempre por cantar junto.

João Gomes

31-10-2025

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Maria Victória Campos

O que, sinceramente me espanta, é a ignorância de que o cidadão comum sofre sobre quem e o que é a Rússia...

Isto só se explica com o uso habitual desse bicho papão chamado MEDO que tanto estragos causa à Humanidade...

E isto é que me assusta e entristece....

Mas desde quando a Rússia pensa vir por aí abaixo atacar a Europa?...

A Ignorância é que mata, mais do que tanques, drones e toda a aviação moderna...

Pobre e triste de quem tem Medos irracionais...chamam-se Fobias...e criam-se tantas...

Por aqui se vê a grande ausência de uma Educação que crie pensadores livres...

Obrigada, caro João Gomes 🥀🙏🏽

 

Jorge Madureira

No fundo é mais uma besta a querer incutir medo nas populações francesa e europeia, nada de novo. O que é verdadeiramente importante é essas populações dizerem claramente se querem ir para a guerra ou não!!! Eu não quero e irei a todas as manifestações populares contra a guerra e contra a clique criminosa e quadrilheira de bruxelas!!!! Nas próximas eleições europeias e mesmo nacional é urgente correr com estes criminosos de Bruxelas!!!


 

Ucrânia e UE - Colapso Anunciado

 

NOTA Prévia:

Há muito tempo que a Europa perdeu o rumo e a União Europeia ficou refém da incompetência dos seus dirigentes. Gente sem capacidade de visão política mundial, perderam o tino e conduzem a Europa para a insolvência dos seus princípios básicos e falência financeira: criar um espaço de convivência pacífica e proteccção social das populações. Ora, perdidos os valores solidários da comunidade, perdidos os importantes meios de produção e desenvolvimento, a UE está atulada em dívidas e compromissos financeiros que jamais conseguirá cumprir, especialmente com os Estados Unidos da América. 

Assim, com governantes predominantemente acéfalos, perdidos nas nuvéns da ambição desmedida, o futuro dos cidadãos começa a ficar miseravelmente perdido nas catacumbas dos gabinetes de Bruxelas.

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Propaganda, Negação e o Sacrifício da Ucrânia
 
É hoje praticamente impossível abordar a guerra na Ucrânia sem reconhecer o ambiente intelectual peculiar em que o debate foi sendo moldado. Desde muito cedo se tornou evidente que qualquer tentativa de formular uma crítica ponderada — ou simplesmente de reconhecer a complexidade do conflito — era recebida com uma agressividade quase ritual. Bastava insinuar que o governo de Zelensky não correspondia ao ideal romântico de liderança patriótica, ou recordar que a queda de Bakhmut, em Junho de 2023, revelava a derrocada estratégica de Kiev, para que o autor dessas observações fosse imediatamente classificado como inimigo interno, marioneta do Kremlin ou traidor moral do “Ocidente democrático”.
A resposta automática — “Então vai para Moscovo!” — funcionava como espécie de senha emocional que dispensava análise, suspendia o pensamento crítico e bloqueava qualquer tentativa de discutir os factos. Não era apenas uma reacção infantil; era um reflexo bem estudado de uma cultura política que já não se alimenta da discussão racional, mas de slogans que funcionam como marcadores identitários.
O que se passou na Europa, sobretudo após 2022, não foi, portanto, apenas a construção de uma narrativa política: foi a consolidação de uma cultura de propaganda. Não a propaganda clássica, ingénua, de contornos patrióticos, mas uma propaganda mais sofisticada, regressiva na sua essência e emocionalmente manipuladora. Uma propaganda que se sustenta tanto no que afirma como, sobretudo, no que deliberadamente omite.
Ao longo dos últimos anos, assistiu-se à fusão progressiva entre discurso político e discurso mediático, produzindo um sistema de informação que opera segundo lógicas de mobilização emocional permanente. A Ucrânia tornou-se, neste sentido, um laboratório privilegiado. As omissões, as distorções e as leituras unilaterais funcionaram como dispositivos destinados a produzir o ambiente psicológico necessário para legitimar uma confrontação estratégica com a Rússia.

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O mais paradoxal, contudo, é que mesmo quando surgiram sinais ténues de racionalidade por parte de Kiev — nomeadamente a disponibilidade para explorar caminhos diplomáticos — não foi a Ucrânia quem determinou o rumo da política de guerra. Foram os governos europeus que, com uma mistura de voluntarismo moralista e arrogância civilizacional, decidiram que negociar com Moscovo equivaleria a capitular perante o inimigo. Assim, a soberania ucraniana, tantas vezes evocada em discursos inflamados, foi rapidamente relativizada sempre que se tornava inconveniente para os objectivos estratégicos de Bruxelas e Washington.
Convém recordar um ponto essencial, frequentemente varrido para debaixo do tapete: Zelensky foi eleito em 2019 com um mandato explícito de pacificação. Os ucranianos votaram num candidato que prometia pôr termo a um conflito que já durava desde 2014. Esse mandato foi, no entanto, progressivamente esvaziado, primeiro pela pressão das forças nacionalistas ucranianas e depois — de forma muito mais profunda — pela realpolitik ocidental, que sempre encarou a Ucrânia como instrumento e não como sujeito político.
A cronologia não mente: o conflito não teve início em 2022, mas numa sequência de decisões geopolíticas que procuraram transformar a Ucrânia num tampão militar e num vector de pressão estratégica contra Moscovo. É neste contexto que deve ser entendida a crescente intromissão do chamado “Ocidente colectivo” nos processos eleitorais, legislativos e militares ucranianos. A Ucrânia foi sendo moldada como peça de um xadrez cujo tabuleiro nunca controlou.
À medida que a guerra avançava e a realidade se impunha — cidades devastadas, um país exaurido, perda demográfica irreversível, uma economia reduzida à dependência externa — a narrativa oficial limitou-se a insistir num voluntarismo que já não enganava ninguém. A Europa, em vez de reavaliar os seus pressupostos, reforçou-os. O mecanismo psicológico é típico de todas as grandes ilusões políticas: quando a realidade ameaça desmentir a narrativa, reforça-se a narrativa para afastar o desconforto cognitivo.
A ironia final deste processo reside no facto de que muitos dos governos europeus envolvidos sabiam perfeitamente que estavam a empurrar a Ucrânia para um confronto impossível. Sabiam que a Rússia encarava a aproximação militar da NATO como ameaça existencial. Sabiam que estavam a lidar com um país marcado por tensões internas profundas, por redes nacionalistas radicais e por níveis de corrupção estrutural que incompatibilizariam qualquer candidatura séria ao modelo democrático europeu. Apesar disso, prosseguiram como se operassem num laboratório sem custos humanos.

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Os acontecimentos mais recentes — incluindo investigações que apontam responsabilidades de agentes ucranianos em actos de sabotagem, como no caso das explosões do Nord Stream — expõem uma contradição moral difícil de ignorar: aqueles que proclamam defender a liberdade e a ordem internacional aceitaram, na prática, uma política que instrumentaliza povos inteiros para alcançar objectivos geoestratégicos que já nem eles próprios conseguem justificar integralmente.
A história demonstrará, com a sua habitual sobriedade cruel, que o Ocidente sacrificou a Ucrânia não por altruísmo, nem sequer por mero cálculo estratégico, mas por uma incapacidade estrutural de admitir que a sua própria narrativa estava errada desde o início. E quando a incapacidade de reconhecer erros se transforma em programa político, o preço é sempre pago por terceiros — nunca pelos que tomam as decisões.
A Ucrânia foi, assim, transformada numa das mais trágicas vítimas de uma era marcada por propaganda, cinismo e uma crescente deserção das responsabilidades morais da política. No centro desta tragédia não está apenas um país destruído; está a revelação inquietante de uma Europa que perdeu o sentido da prudência e o respeito pela verdade.
E talvez seja isto, no fim, o mais perturbador.
Tenho dito
1/12/25
ADRIANO PIRES
 
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SIMBOLISMO, SEM GRANDES PRENDAS

A encenação de um encontro - e as suas limitações
Hoje, no Eliseu, o encontro entre Zelensky e Macron pretendeu mostrar união e empenho - uma fotografia de diplomacia reforçada, uma imagem de apoio ocidental renovado à causa ucraniana. A agenda oficial fala de “paz justa e duradoura”, em coordenação com os esforços dos Estados Unidos e os diálogos de Genebra.
Mas a substância, a este ponto, permanece escassa.
O plano americano, de 28 pontos - amplamente criticado por favorecer Moscovo - teve de ser revisto, e mesmo assim alimenta dúvidas em muitas capitais europeus. A componente militar de apoio parece esbarrar no receio político de muitas lideranças ocidentais, sobretudo aquelas sob pressão interna, o que reduz o que originalmente se podia vislumbrar como compromisso real de segurança.
Uma década de promessas não cumpridas - e a sombra de 2014
Desde 2014, com os Acordos de Minsk, a liderança ucraniana optou por caminhos políticos e militares de resistência e pressão - nomeadamente em Donbass - em vez de cumprir integralmente os acordos de cessar-fogo e descentralização. Isso condicionou, desde logo, a credibilidade da via diplomática.
A insistência, ao longo dos anos, numa aliança de facto com Washington - e numa dependência das políticas de pressão dos EUA sobre Moscovo - consolidou uma trajetória que hoje se aproxima de um beco sem saída. O plano americano atual surge como herdeiro dessa aposta: Kiev, sem garantias sólidas, não tem margem para reivindicar grandeza; arrisca-se, sim, a perder o que tinha como esperança.
No momento em que se reavivam negociações de paz, o custo da escalada militar e da dependência externa assume proporções dramáticas: território perdido, população devastada, infraestrutura destruída. A “vitória” prometida, se vier, dificilmente será radiosa - mais provável é uma paz imposta pelas circunstâncias, com compromissos umbilicais frágeis, à espera do primeiro desafio de Moscovo.
O “esgar” - rostos que falam mais do que palavras
Nas imagens da recepção de hoje, nota-se algo mais do que cortesias protocolares. O olhar de Zelensky, tenso; o semblante sério de Macron; o gesto contido, quase de obrigação. Mesmo os acompanhantes - incluindo as respetivas esposas - parecem carregar o peso do simbolismo: não há sorrisos fáceis, não há gestos espontâneos de confiança.
Esse “esgar” - mistura de apreensão, diplomacia cansada e consciência de um contexto frágil - transmite mais do que palavras: revela incerteza. A cena pública busca transmitir unidade, mas revela, no corpo, no rosto, o receio de quem sabe que “apoiar” hoje pode significar deixar para amanhã o desenlace do problema.

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A paz que vem - provável - mas sem glória
É possível que, nos próximos meses, a guerra esfrie. Que a diplomacia, os bombardeamentos exaustivos e o desgaste bélico conduzam a um cessar-fogo. Talvez haja trocas, garantias provisórias, alguma reconstrução. Mas dificilmente será a paz dos sonhos de 2014 - ou mesmo dos apelos de 2022.
Quando chegar esse momento, Kiev vai, ou deveria, olhar para trás e perceber que ao longo da década fez escolhas: apostar tudo na resistência militar e na pressão ocidental como forma de assegurar futuro. Se esse futuro chegar com concessões territoriais, com condicionamentos à soberania, com dependência externa reforçada - estaremos, de facto, perante uma derrota estratégica.
Porque, afinal, o que se vê hoje no Eliseu é o coroar de anos de reforço militar, promessas geopolíticas e diplomacia de palco - mas sem que essa retórica tenha gerado, de facto, a segurança real que prometia e a compreensão das razões que tinha um lado considerado inimigo.
 
02-12-2025
João Gomes in Facebook
 

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