A ESPERANÇA DESESPERADA
Estamos no limiar do fim do ano que vem como quase todas as coisas importantes da vida: sem pedir licença e com um certo ar de déjà vu. Abre-se o calendário novo, ainda imaculado, como se fosse uma promessa, e fecham-se doze meses gastos, cheios de intenções que ficaram a meio caminho, ideias que envelheceram antes de nascer e projetos que já vinham do ano anterior - esse passado recente que fingimos não reconhecer.
Chamamos a isso recomeço. Talvez por pudor. Talvez por medo de lhe chamar repetição.
Há sempre essa tentativa íntima de alinhar o futuro: “para o ano é que é”. Para o ano cuidarei melhor de mim, para o ano farei aquilo que adiei, para o ano terei tempo. Mas o corpo, menos paciente do que a imaginação, vai deixando sinais. A saúde já não é uma abstração distante, é um bem negociável, frágil, dependente de filas, senhas e diagnósticos tardios. A idade avança sem metáforas e o tempo deixa de ser um aliado generoso para se tornar um credor exigente.
E depois há o mundo. Esse mundo que entra pela televisão dentro, pelos jornais, pelas conversas repetidas, carregado de guerras que não acabam, conflitos que se normalizam, governos que administram a espera e nações que parecem incapazes de resolver aquilo que dizem ser essencial. A geopolítica cresce em tensão enquanto a vida comum encolhe em direitos. Fala-se de estratégias, alianças, interesses; vive-se com salários curtos, serviços longínquos e uma sensação difusa de abandono.
Portugal, esse país de brandos costumes e paciências prolongadas, mantém a aparência de calma enquanto o tempo passa por cima das promessas. O SNS resiste como pode, a Justiça arrasta-se como sabe, o trabalho consome mais do que devolve e os idosos aprendem, em silêncio, que envelhecer é tornar-se invisível. Metade dos problemas fica sempre para depois, como se o “depois” fosse um lugar seguro e não apenas um adiamento crónico.

Chegados ao Ano Novo, pergunta-se: que pedir? Que o sistema funcione? Que a justiça seja justa? Que a saúde chegue a tempo? Que o trabalho não esgote a vida antes da reforma - se ela ainda vier? Pedidos modestos, quase constrangedores, num país que se habituou a chamar ambição ao simples funcionamento do essencial.
E eu, indivíduo entre milhões, que posso pedir senão acesso? Acesso quando adoecer, quando fraquejar, quando já não souber defender-me sozinho. Não peço exceções, peço garantias mínimas. Não peço futuro glorioso, peço dignidade previsível. Mas até isso parece hoje um acto de fé.
É aqui que nasce esta esperança estranha, quase contraditória: uma esperança desesperada. Não a esperança ingénua de que tudo mude, mas a esperança teimosa de que nem tudo piore. A esperança de que o fio do recomeço, por mais fino que seja, não se parta nas mãos de quem ainda acredita que viver não pode ser apenas resistir.
O Ano Novo vem, afinal, sem novidades. Traz apenas o ritual, o calendário limpo e a ilusão necessária de que ainda vale a pena tentar. Talvez seja pouco. Talvez seja tudo. Porque enquanto houver essa esperança - mesmo cansada, mesmo irónica, mesmo ferida - ainda não desistimos completamente de nós, nem do mundo que insistimos em chamar comum.
28-12-2025 - João Gomes, in Facebook

OS RESISTENTES
Há seres humanos que persistem em acreditar quando acreditar já não é cómodo. Não por desconhecimento do mundo, mas por lucidez suficiente para perceber que a realidade dominante não é sinónimo de verdade última. São os resistentes. Não marcham em bloco nem levantam bandeiras ruidosas; sobrevivem, antes, na obstinação silenciosa de quem se recusa a aceitar que a injustiça seja natural e a desigualdade inevitável.
Carregam consigo ideologias feridas, muitas delas declaradas mortas pelos vencedores da história. Dizem-lhes que falharam - e falharam, é certo, não poucas vezes. Mas os resistentes sabem que muitas dessas falhas não nasceram das ideias em si, mas da sua captura: pela má condução política, pelo autoritarismo travestido de redenção, ou pela imaturidade de sociedades que ainda não compreendiam que a força coletiva não anula o indivíduo - protege-o.
Vivem hoje cercados por um liberalismo económico que se apresenta como horizonte único, como se fosse uma lei da natureza e não uma construção histórica. Um sistema que absolutiza o mercado, privatiza o risco, socializa o fracasso e chama liberdade à sobrevivência competitiva. Um sistema que mede o valor humano pela produtividade, a dignidade pelo rendimento e a vida pela sua utilidade económica.

Nesse mundo, a precariedade deixou de ser exceção para se tornar condição existencial. O trabalho já não garante futuro; apenas adia a queda. A riqueza cresce, mas escorre para cima, concentrada em elites cada vez mais desligadas da vida comum. Fala-se de mérito para justificar heranças, de eficiência para legitimar cortes, de inevitabilidade para anestesiar consciências.
Os resistentes não ignoram isto. Pelo contrário: é por verem com clareza que não desistem. Sabem que a promessa de uma sociedade mais justa foi traída, mas recusam aceitar que tenha sido uma ilusão. Recusam confundir o erro histórico com a falência moral da ideia de solidariedade. Continuam a acreditar que o trabalho e o fruto do trabalho não podem existir apenas ao serviço de poucos, enquanto muitos vivem numa permanente economia do medo.
Chamam-lhes ingénuos. Sonhadores fora do tempo. Mas talvez sejam apenas aqueles que ainda não se renderam ao cinismo como forma superior de inteligência. Procuram a bondade acima do materialismo, a concórdia acima da disputa permanente, o bem comum acima da acumulação privada. Não porque ignorem o conflito, mas porque sabem que uma sociedade organizada exclusivamente em torno dele acaba por se devorar a si própria.
Os resistentes não prometem paraísos. Sabem que nenhuma organização humana é perfeita. O que recusam é a normalização da injustiça, a glorificação da desigualdade, a ideia de que não há alternativa. Persistem não por esperança fácil, mas por responsabilidade ética. Porque desistir seria aceitar que o mundo é apenas aquilo que o poder permite - e nada mais.
E enquanto houver quem resista assim, sem garantias, sem aplauso e sem recompensa, a história não se fecha. Fica suspensa. Inquieta. À espera de que alguém volte a lembrar que viver em sociedade não é competir até ao esgotamento, mas partilhar o risco, o trabalho e a dignidade de existir.
Maria Victória Campos -

PATIFÓRIA GOVERNAÇÃO
Peregrinamos pelas estradas da vida com esperança de alcançar a plenitude do conforto e da serenidade num ambiente feliz; mas, há tremendas dificuldades em ultrapassar os obstáculos premeditadamente colocados nos caminhos. São as instituições públicas sem atendimentos atempados; são os serviços de saúde persistentemente demorados; são os dinheiros públicos desviados para serviços de instituições privadas; são os governantes escolhidos a dedo, com fins de servir clientelismos lobistas. Talvez, alguns açoites bem aplicados nos prepotentes mandantes que nos atrofiam a vida, seria uma maneira de amansar a sua forma impetuosa de açambarcar e desbaratar os dinheiros e bens da nação, que nos pertencem e fazem falta à normalização do atendimento às necessidades dos cidadãos.
Neste mundo em convulsão e com governantes impedrenidos, os caminhos são lamacentos e dificultam a chegada ao destino que um dia nos prometeram. A natural pretensão de encontrarmos a felicidade nas circunstâncias desta vida não pode ser frustrada por qualquer agiota com pretensões a governante.
A governação deve ser abrangente e atenta aos necessitados e confortar os fragilizados que mais não têm do que queixumes e rogos lancinantes, que vós, sedentos de servir clientelas, não atendeis, por se verem sofredores esquecidos às portas do Serviço Nacional de Saúde. As crianças e os velhos jamais vos perdoarão a ausência de clemência e atenta compaixão, o que causa desconfiança perante o comportamento danoso e escabrosa tirania que mata qualquer sinal de esperança. Quando vemos os governantes, que deveriam proteger e dinamizar os serviços públicos ao serviço dos mais carenciados, atirar milhões de euros dos Serviços públicos, especialmente, do SNS para os bolsos dos privados e sanguessugas do erário público, temos que tomar posições preventivas no acto das nossas escolhas políticas.

Ao vermos esses governantes atentar contra os direitos legítimos dos cidadãos, descaradamente a escarnecer da desgraça dos mais humildes e desgastados, temos que sentir repulsa recriminatória, pois, ficarão circunscritos aos tiranos que nos consomem o pensamento, perturbam o essencial da vida e recusam os meios de sobrevivência.
É estranho senhor primeiro-ministro que não se perturbe com as desastrosas decisões e desventuras, ao seguir o que lhe aprouver com o risco de tombar no tejadilho do esquife contruído à sua medida. A patifória decisão de nos enganar com a descida dos impostos e no aumento dos salários demonstra o instinto disfarçado com que menospreza os mais vulneráveis cidadãos reformados e a precaridade dos trabalhadores, ao criar situações causadoras de desassossego e ignorar os lamentos e desgraças que nos incomodam e causam ansiedade quanto ao futuro; assumiu a compostura de coveiro das instituições e serviços sociais do Estado; doloso atentado contra a Constituição da República.

Começo a ficar enojado por ver tais actos de malvadez em pessoas que acreditávamos como tendo alguma sensibilidade com os carenciados de apoios sociais, de assistência na saúde e acolhimento na velhice. Posso afiançar que a vingança pode chegar atrasada, mas não falhará na hora de votar.
Temas actuais . Outubro de 2025 - Joaquim Coelho


