sábado, 3 de janeiro de 2026

Ano Novo - Governança em Contramão

 

A ESPERANÇA DESESPERADA

   Estamos no limiar do fim do ano que vem como quase todas as coisas importantes da vida: sem pedir licença e com um certo ar de déjà vu. Abre-se o calendário novo, ainda imaculado, como se fosse uma promessa, e fecham-se doze meses gastos, cheios de intenções que ficaram a meio caminho, ideias que envelheceram antes de nascer e projetos que já vinham do ano anterior - esse passado recente que fingimos não reconhecer.

   Chamamos a isso recomeço. Talvez por pudor. Talvez por medo de lhe chamar repetição.

   Há sempre essa tentativa íntima de alinhar o futuro: “para o ano é que é”. Para o ano cuidarei melhor de mim, para o ano farei aquilo que adiei, para o ano terei tempo. Mas o corpo, menos paciente do que a imaginação, vai deixando sinais. A saúde já não é uma abstração distante, é um bem negociável, frágil, dependente de filas, senhas e diagnósticos tardios. A idade avança sem metáforas e o tempo deixa de ser um aliado generoso para se tornar um credor exigente.

   E depois há o mundo. Esse mundo que entra pela televisão dentro, pelos jornais, pelas conversas repetidas, carregado de guerras que não acabam, conflitos que se normalizam, governos que administram a espera e nações que parecem incapazes de resolver aquilo que dizem ser essencial. A geopolítica cresce em tensão enquanto a vida comum encolhe em direitos. Fala-se de estratégias, alianças, interesses; vive-se com salários curtos, serviços longínquos e uma sensação difusa de abandono.

   Portugal, esse país de brandos costumes e paciências prolongadas, mantém a aparência de calma enquanto o tempo passa por cima das promessas. O SNS resiste como pode, a Justiça arrasta-se como sabe, o trabalho consome mais do que devolve e os idosos aprendem, em silêncio, que envelhecer é tornar-se invisível. Metade dos problemas fica sempre para depois, como se o “depois” fosse um lugar seguro e não apenas um adiamento crónico.

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   Chegados ao Ano Novo, pergunta-se: que pedir? Que o sistema funcione? Que a justiça seja justa? Que a saúde chegue a tempo? Que o trabalho não esgote a vida antes da reforma - se ela ainda vier? Pedidos modestos, quase constrangedores, num país que se habituou a chamar ambição ao simples funcionamento do essencial.

   E eu, indivíduo entre milhões, que posso pedir senão acesso? Acesso quando adoecer, quando fraquejar, quando já não souber defender-me sozinho. Não peço exceções, peço garantias mínimas. Não peço futuro glorioso, peço dignidade previsível. Mas até isso parece hoje um acto de fé.

   É aqui que nasce esta esperança estranha, quase contraditória: uma esperança desesperada. Não a esperança ingénua de que tudo mude, mas a esperança teimosa de que nem tudo piore. A esperança de que o fio do recomeço, por mais fino que seja, não se parta nas mãos de quem ainda acredita que viver não pode ser apenas resistir.

   O Ano Novo vem, afinal, sem novidades. Traz apenas o ritual, o calendário limpo e a ilusão necessária de que ainda vale a pena tentar. Talvez seja pouco. Talvez seja tudo. Porque enquanto houver essa esperança - mesmo cansada, mesmo irónica, mesmo ferida - ainda não desistimos completamente de nós, nem do mundo que insistimos em chamar comum.

                                28-12-2025 - João Gomes, in Facebook 

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OS RESISTENTES

   Há seres humanos que persistem em acreditar quando acreditar já não é cómodo. Não por desconhecimento do mundo, mas por lucidez suficiente para perceber que a realidade dominante não é sinónimo de verdade última. São os resistentes. Não marcham em bloco nem levantam bandeiras ruidosas; sobrevivem, antes, na obstinação silenciosa de quem se recusa a aceitar que a injustiça seja natural e a desigualdade inevitável.

   Carregam consigo ideologias feridas, muitas delas declaradas mortas pelos vencedores da história. Dizem-lhes que falharam - e falharam, é certo, não poucas vezes. Mas os resistentes sabem que muitas dessas falhas não nasceram das ideias em si, mas da sua captura: pela má condução política, pelo autoritarismo travestido de redenção, ou pela imaturidade de sociedades que ainda não compreendiam que a força coletiva não anula o indivíduo - protege-o.

   Vivem hoje cercados por um liberalismo económico que se apresenta como horizonte único, como se fosse uma lei da natureza e não uma construção histórica. Um sistema que absolutiza o mercado, privatiza o risco, socializa o fracasso e chama liberdade à sobrevivência competitiva. Um sistema que mede o valor humano pela produtividade, a dignidade pelo rendimento e a vida pela sua utilidade económica.

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   Nesse mundo, a precariedade deixou de ser exceção para se tornar condição existencial. O trabalho já não garante futuro; apenas adia a queda. A riqueza cresce, mas escorre para cima, concentrada em elites cada vez mais desligadas da vida comum. Fala-se de mérito para justificar heranças, de eficiência para legitimar cortes, de inevitabilidade para anestesiar consciências.

   Os resistentes não ignoram isto. Pelo contrário: é por verem com clareza que não desistem. Sabem que a promessa de uma sociedade mais justa foi traída, mas recusam aceitar que tenha sido uma ilusão. Recusam confundir o erro histórico com a falência moral da ideia de solidariedade. Continuam a acreditar que o trabalho e o fruto do trabalho não podem existir apenas ao serviço de poucos, enquanto muitos vivem numa permanente economia do medo.

   Chamam-lhes ingénuos. Sonhadores fora do tempo. Mas talvez sejam apenas aqueles que ainda não se renderam ao cinismo como forma superior de inteligência. Procuram a bondade acima do materialismo, a concórdia acima da disputa permanente, o bem comum acima da acumulação privada. Não porque ignorem o conflito, mas porque sabem que uma sociedade organizada exclusivamente em torno dele acaba por se devorar a si própria.

   Os resistentes não prometem paraísos. Sabem que nenhuma organização humana é perfeita. O que recusam é a normalização da injustiça, a glorificação da desigualdade, a ideia de que não há alternativa. Persistem não por esperança fácil, mas por responsabilidade ética. Porque desistir seria aceitar que o mundo é apenas aquilo que o poder permite - e nada mais.

   E enquanto houver quem resista assim, sem garantias, sem aplauso e sem recompensa, a história não se fecha. Fica suspensa. Inquieta. À espera de que alguém volte a lembrar que viver em sociedade não é competir até ao esgotamento, mas partilhar o risco, o trabalho e a dignidade de existir.

 

Maria Victória Campos  -  

Prometeu, andas a roubar o fogo dos deuses para dares aos homens?...
Fogo... consciência, espírito, transformação...
Como me identifico e revejo no seu sentir e pensar...
Resistir desta maneira que descreve, não é nenhum acto heróico e sim lúcido, como descreve magistralmente neste escrito tão inspirado e inspirador...
Obrigada, João Gomes...sempre...🥀🔥🙏🏽
 
 

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PATIFÓRIA GOVERNAÇÃO

    Peregrinamos pelas estradas da vida com esperança de alcançar a plenitude do conforto e da serenidade num ambiente feliz; mas, há tremendas dificuldades em ultrapassar os obstáculos premeditadamente colocados nos caminhos. São as instituições públicas sem atendimentos atempados; são os serviços de saúde persistentemente demorados; são os dinheiros públicos desviados para serviços de instituições privadas; são os governantes escolhidos a dedo, com fins de servir clientelismos lobistas. Talvez, alguns açoites bem aplicados nos prepotentes mandantes que nos atrofiam a vida, seria uma maneira de amansar a sua forma impetuosa de açambarcar e desbaratar os dinheiros e bens da nação, que nos pertencem e fazem falta à normalização do atendimento às necessidades dos cidadãos.

   Neste mundo em convulsão e com governantes impedrenidos, os caminhos são lamacentos e dificultam a chegada ao destino que um dia nos prometeram. A natural pretensão de encontrarmos a felicidade nas circunstâncias desta vida não pode ser frustrada por qualquer agiota com pretensões a governante.

   A governação deve ser abrangente e atenta aos necessitados e confortar os fragilizados que mais não têm do que queixumes e rogos lancinantes, que vós, sedentos de servir clientelas, não atendeis, por se verem sofredores esquecidos às portas do Serviço Nacional de Saúde. As crianças e os velhos jamais vos perdoarão a ausência de clemência e atenta compaixão, o que causa desconfiança perante o comportamento danoso e escabrosa tirania que mata qualquer sinal de esperança. Quando vemos os governantes, que deveriam proteger e dinamizar os serviços públicos ao serviço dos mais carenciados, atirar milhões de euros dos Serviços públicos, especialmente, do SNS para os bolsos dos privados e sanguessugas do erário público, temos que tomar posições preventivas no acto das nossas escolhas políticas.

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   Ao vermos esses governantes atentar contra os direitos legítimos dos cidadãos, descaradamente a escarnecer da desgraça dos mais humildes e desgastados, temos que sentir repulsa recriminatória, pois, ficarão circunscritos aos tiranos que nos consomem o pensamento, perturbam o essencial da vida e recusam os meios de sobrevivência.

   É estranho senhor primeiro-ministro que não se perturbe com as desastrosas decisões e desventuras, ao seguir o que lhe aprouver com o risco de tombar no tejadilho do esquife contruído à sua medida. A patifória decisão de nos enganar com a descida dos impostos e no aumento dos salários demonstra o instinto disfarçado com que menospreza os mais vulneráveis cidadãos reformados e a precaridade dos trabalhadores, ao criar situações causadoras de desassossego e ignorar os lamentos e desgraças que nos incomodam e causam ansiedade quanto ao futuro; assumiu a compostura de coveiro das instituições e serviços sociais do Estado; doloso atentado contra a Constituição da República.

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   Começo a ficar enojado por ver tais actos de malvadez em pessoas que acreditávamos como tendo alguma sensibilidade com os carenciados de apoios sociais, de assistência na saúde e acolhimento na velhice. Posso afiançar que a vingança pode chegar atrasada, mas não falhará na hora de votar.

     Temas actuais . Outubro de 2025   -  Joaquim Coelho

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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Russofobia-Pedagogia do Medo

 

GENERAL MANDON NA CANÇÃO DA GUERRA

O general francês Fabien Mandon, Chefe do Estado-Maior do Exército, fez recentemente soar os tambores da inquietação ao discursar perante a Comissão de Defesa da Assembleia Nacional. Numa intervenção que mais parecia um prelúdio de guerra do que um relatório técnico, o militar advertiu que o exército russo “pode ser tentado a continuar a guerra” na Europa e que a França deve “estar pronta para um choque em três ou quatro anos”.

A frase não passou despercebida. Foi noticia, noticia de noticias - e um alerta que, à primeira vista, parece um exercício legítimo de prudência estratégica. Mas à segunda leitura - e sobretudo à luz do contexto político - o discurso do general soa menos como uma previsão e mais como um ensaio de dramatização orçamental.

A canção começa: “o inimigo aproxima-se”

Há décadas que o Ocidente alterna entre o medo e o desdém face à Rússia. Mas, com a guerra na Ucrânia, a tensão ganhou nova utilidade: a da mobilização discursiva. Falar em “choque”, em “ameaça”, em “três ou quatro anos” é, em política, uma forma de marcar o tempo da urgência. Não se trata apenas de prever - trata-se de preparar consciências.

E aqui reside a astúcia do general: ao transformar o cenário hipotético em inevitável, ele cria o ambiente psicológico necessário para que o poder político abra os cofres. Coincidência ou não, o discurso deu-se na véspera da discussão parlamentar sobre o orçamento da Defesa e da Segurança Social. Enquanto os franceses debatiam cortes em apoios e novos impostos sobre vales de refeição, o general pedia “readiness” - prontidão. Ou seja, menos pão, mais pólvora.

O refrão: “preparem-se”

“Estar pronto para um choque” é uma expressão que ressoa bem nos media e provoca arrepios convenientes no público. Mas é também uma fórmula perigosa, porque naturaliza o estado de guerra como horizonte de estabilidade. O discurso do medo, quando repetido, instala-se como novo normal. A política, então, já não se faz de escolhas, mas de reflexos: gasta-se mais em defesa, corta-se mais no social, e tudo em nome de uma ameaça que permanece, curiosamente, sempre no futuro.

 

O perigo é duplo:

- internamente, cria-se uma aceitação passiva de medidas impopulares;

- externamente, reforça-se a narrativa de que o Ocidente vive obcecado por inimigos, o que alimenta a própria retórica russa.

A resposta de Moscovo: contra-canto diplomático

A Embaixada da Rússia em Paris reagiu com a indignação previsível, mas com uma precisão cirúrgica. Acusou o general de “histeria” e insinuou que o seu discurso não passava de um instrumento para justificar o aumento das despesas militares. E, convenhamos, há algo de verdadeiro nessa leitura: a ameaça russa serve hoje como pretexto perfeito para o rearmamento europeu, num continente que há muito havia esquecido as trincheiras e preferia os subsídios.

O general Mandon, ao dramatizar o risco, oferece à classe política o álibi ideal para legitimar orçamentos de guerra num tempo de paz.

A diplomacia russa pode ser cínica - mas não é burra.

A partitura oculta: a economia do medo

A retórica da ameaça não é inocente. Cada vez que um militar fala em “choque iminente”, as ações das empresas de defesa sobem discretamente; cada vez que um político fala em “resiliência europeia”, nasce mais um contrato para blindados, drones ou sistemas de mísseis. A guerra, mesmo quando é apenas uma hipótese, move dinheiro. E o medo, quando bem administrado, move vontades.

O que Mandon fez foi afinar a orquestra: as notas do medo soam melhor quando o público já está predisposto a ouvi-las. E o público europeu, saturado de crises e desconfianças, está no ponto certo para aceitar um novo refrão - o da “segurança antes de tudo”.

Epílogo: a política da canção

Ninguém contesta o direito de um general a preparar o seu exército. Mas há uma diferença entre preparar soldados e preparar sociedades para a ideia de que a guerra é inevitável. Quando o discurso da defesa se transforma em narrativa da necessidade, a política perde o seu timbre civil. E quando o medo se torna a língua franca da Europa, a democracia passa a ser cantada em surdina.

O General Mandon pode não estar a compor uma sinfonia bélica - mas está, sem dúvida, a escrever a partitura de uma nova pedagogia do medo. E o problema das canções é que, quando bem afinadas, o povo acaba sempre por cantar junto.

João Gomes

31-10-2025

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Maria Victória Campos

O que, sinceramente me espanta, é a ignorância de que o cidadão comum sofre sobre quem e o que é a Rússia...

Isto só se explica com o uso habitual desse bicho papão chamado MEDO que tanto estragos causa à Humanidade...

E isto é que me assusta e entristece....

Mas desde quando a Rússia pensa vir por aí abaixo atacar a Europa?...

A Ignorância é que mata, mais do que tanques, drones e toda a aviação moderna...

Pobre e triste de quem tem Medos irracionais...chamam-se Fobias...e criam-se tantas...

Por aqui se vê a grande ausência de uma Educação que crie pensadores livres...

Obrigada, caro João Gomes 🥀🙏🏽

 

Jorge Madureira

No fundo é mais uma besta a querer incutir medo nas populações francesa e europeia, nada de novo. O que é verdadeiramente importante é essas populações dizerem claramente se querem ir para a guerra ou não!!! Eu não quero e irei a todas as manifestações populares contra a guerra e contra a clique criminosa e quadrilheira de bruxelas!!!! Nas próximas eleições europeias e mesmo nacional é urgente correr com estes criminosos de Bruxelas!!!